Terça-feira, Dezembro 01, 2009

Continho


Estou na faculdade. Faço direito e pretendo ganhar dinheiro, como 99,99% dos meus colegas.
O primeiro dia de aula ainda nem terminou e eu já fui cooptada para a luta armada. Amanhã começa uma greve de estudantes contra o aumento no restaurante universitário. O almoço vai passar de dois dinheiros para dois dinheiros e trinta centavos e nós, estudantes, não podemos pagar por mais este ato do imperialismo.
Pretendo passar minha vida acadêmica inteira sem chegar perto daquela comida, mas entro em greve por solidariedade. Solidasnosc, como diz meu novo botton com o logotipo do sindicato do Lech Valesa.
Chego em casa e meu pai fala horas da decadencia do movimento estudantil. No tempo dele os universitarios paravam pelo petroleo. Agora é pelo bandeijao.
Minha vida se resume em ir até a faculdade e ficar lá o dia inteiro sem fazer nada, só ouvindo Caminhando e Cantando no violão. Às vezes me chamam pra fazer piquete na frente do restaurante e é absolutamente constrangedos explicar para os coitados que estao la que por trinta centavos a mais eles e~stão colocando em risco a democracia do ensino. Para não dizer do país.
No saguão da faculdade de direito, onde os estudantes se concentram, logo começa a troca de olhares entre companheiros e companheiras.
Desde o primeiro dia de greve tenho notado um certo interesse por parte de um tipo moreno, magro, com uma espécie de tique que o faz tremer todo.
-Você é bem bonita.
Em um segundo radiografo completamente o cidadão.
Não é feio, mas parece maltratado. Ainda não sei dizer a idade, com certeza bem mais que os meus 23. Usa o figurino básico da época: calça encardida com faixa peruana como cinto, camiseta Hay que Endurecer e alpargatas. O cabelo é escuro com alguns fios brancos. Tem uma bolsa de pano atravessada e alguns livros perdendo a capa na mão.
No fim do dia eu já sei que ele intregra uma organização estudantil, que faz mestrado em sociologia, que seu único dinheiro vem de uma bolsa de estudos que um órgão de pesquisa estatal e que, mesmo assim, quer derrubar o governo.
A essas alturas já me vejo casada, velhinha, na nossa casinha na periferia(ele é da extrema esquerda), com nossos inúmeros filhos, netos e vira-latas pulando ao redor. Vou embora pensando nele.
Encontro com ele na faculdade. Hoje ele fala pouco, lê a Folha de São Paulo enquanto eu tomo um café. Curioso que ele se interessa mais pela reportagem sobre o Fagner. Temo que ele possa gostar também de Zé Ramalho.
Quando termina de ler, diz que tem uma revelação pra me fazer. Preparo a minha cara de receber declarações de amor, mas o que me conta é que está em campanha para arrecadar dinheiro para a luta estudantil.
Me diz que só devo contribuir por amor à causa, e não à ele. Sou obrigada a confessar que não tenho um centavo, mas ele aceita também jóias e obras de arte. Minha única jóia é uma correntinha de ouro com meu nome, que ganhei quando fiz quinze anos. Ele diz que só posso doar se acreditar realmente no que estou fazendo. Acabo doando a correntinha e combino de encontrar com ele no seu apartamento amanhã.
Estaciono o carro do meu pai a muitas quadras para ele não achar que sou burguesa. Caminhos por lugares ermos que nunca iria conhecer, não fosse o amor. A cada esquina agradeço a Deus por não estar morta e estuprada, o que ocorrer primeiro.
Toco a campainha. Subo as escadas correndo para não dar tempo de voltar. Eu esperava um pardieiro, e encontro. Ando pela sala com móveis sujos, roupas jogadas por todo canto de parede. Faço de conta que me espanto com a pia cheia de louça podre.
A greve que deu origem a toda história termina com a comida do restaurante trinta centavos mais cara. E todos voltam para as salas de aula. Menos ele, que continua ocupado com a resistência.
Acabo entrando para a tal organização e tenho até um codinome. Elisa. Uma das minhas funções é vender o jornal da resistência. Quatro exemplares por semana. Na primeira vez empurro um pra minha mãe, um pro meu pai e compro os outros dois. Depois passo a comprar todos os quatro, sem coragem de oferecer um jornal tão chato para alguém. Satisfeito com tanta eficiência, ele aumenta a minha cota para oito jornais por semana.
Deixo a organização para não pedir concordata.
Os companheiros me pressionam, mas nem o Kmer Vermelho me recapturaria.
Ele insinua que sou stalinista, mas continua querendo ficar comigo. Um dia marco e não apareço. Ele liga e eu não atendo. Fico sumida por uma semana e ele vai me procurar na faculdade. Sentamos para debater temas políticos, sociais e amorosos, nessa ordem. Quero escutar, mas estou longe, cada vez mais longe da luta e do apartamento dele.

Quarta-feira, Outubro 28, 2009


Eles chegam com seus ternos pretos esquisitos e óculos-ray-ban-último-tipo cafoninhas. E lá está você acabando do enxugar as últimas lágrimas. Não perguntam nada, apenas sacam do bolso um bastão colorido de R$ 1,99... olhe para isso.... um flash.
Pronto. Você está pronta para começar de novo.
Não vai se lembrar onde quebrou as costelas, deixou o joelho roxo, não vai mais sentir o furo da facada nas costas, nem as escoriações do peito, muito menos o coração partido. Maiô de oncinha e lantejoulas, sombra roxa com purpurina e sobe de novo na escadinha para o trapézio, sem rede de proteção, claro.

Hora do show, meninos!

Sábado, Outubro 10, 2009


"Tem que ser selado, registrado, carimbado
Avaliado e rotulado se quiser voar!!
Se quiser voar
Pra lua, a taxa é alta
Pro sol, identidade,
Vai já pro seu foguete viajar pelo universo
é preciso o meu carimbo dando, sim sim sim sim"

Lembram do carimbador maluco do plunct plact zum? Não? Eu também não. Quando ele apareceu eu nem tinha nascido, mas pra isso existe youtube. Uma versão nova versão dos carimbadores malucos está solta por aí. Cuidado. Eles estão prontos para rotularem qualquer coisa que tiverem dificuldade de entender.
Vai você falar bem das roupas fluor na frente de um carimbador maluco pra ver o que acontece. Eles logo vão falar: gente da moda, fashion (que palavra brega, eu penso, também carimbadora, mas não maluca).
Se você gostar de coisas como, por exemplo, manter as unhas pintadas e o cabelo bem cortado e comentar na frente de um carimbador maluco o quanto gosta de fazer essas coisas, logo será chamada de fútil.
E se você gostar de músicas "estranhas", e cores, quadros, desenhos, poeminhas e filmes da atlântida logo alguém chama de alternativa. E se você gostar de tudo isso ao mesmo tempo, o carimbador começará a ficar cada vez mais enlouquecido tentando te entender. E vai voltar pra casa com uma anotação mental onde você é considerada: alternativa, fashion e fútil. Mas na hora em que você diz que morre de rir com Mainardi e sonha conhecer Cuba, ele vai começar a ter espasmos de nervoso por falta de compreensão e vai concluir que você é uma alternativa, fashion, fútil, neo liberal e comunista.
Os carimbadores malucos são irritantes. Mas na verdade é ótimo dar trabalho pra essa gente. Que eles gastem seus miolinhos fracos com uma coisa tão idiota quanto tentar entender as pessoas por meio de rótulos. Desperdício doido de inteligência!

Quarta-feira, Outubro 07, 2009

Quando se encontraram planejaram viajar juntos para Cuba. Também pensaram em alugar um apartamento em Lisboa, onde teriam um cachorro. Por pouco não inventaram o nome do cachorro. Decidiram que iam fazer juntos dois filmes nesse dia.
Na segunda vez que se viram, planejaram também escrever um livro, e, claro, pensaram no título e na festa de lançamento. Existiam muitas pessoas um da vida do outro para se encontrar e falaram uma média de 100 vezes a frase "você precisa conhecer", com os olhos brilhando. Fariam grandes coisas juntos. Coisas realmente incríveis.
Tão incríveis que depois de combinarem tantas coisas os dois nunca mais se viram. Ele vai sozinho para Cuba e ela para Lisboa. Não vão avisar um ao outro. E tudo bem.

Terça-feira, Outubro 06, 2009

A arte de procrastinar


Se eu já li Shopenhauer? Se eu já li Dostoyewsky? Se eu já li Shakespeare? Se eu já li… Ainda não, tô planejando!
Se eu já li Nietzche? Se eu já li Frankenstein? Se eu já li Dr Jackill and Mr Hide?
Se eu já li o dicionári... ainda não, tô planejando!
Se eu já vi Morangos Silvesters? Se eu já vi "Silvestres Talone"? Se eu já vi Cidade de Deus? Se eu já vi Pequeno Príncipe? Pequena Miss Sunshine... Ainda não, tô planejando!
Se eu já arrumei uma grana pra ganhar? Se eu já arrumei um trabalho para trabalhar? Se eu já arrumei um ofício para oficializar, um sindicato pra poder me sindicalizar? Ainda não, tô planejando!
No final da festa, guardanapo é bolo e eu não ligo pra essas conjecturas. A responsabilidade sócio-ambiental está em seperar o lixo e fiscalizar se os governantes estão mesmo fazendo a sua parte… Mas se todo mundo fizer a sua parte, você vai fazer o quê? Tô planejando!

Terça-feira, Setembro 22, 2009

Recomendo

Quarta-feira, Setembro 16, 2009

Você viu a última de Sarney?
Viu que finalmente descobriram quem matou Michael Jackson?
Viu que revelaram o verdadeiro Segredo de Fátima?
Viu aquele trabalho que eu te mandei?
Viu que está tendo um incêndio do outro lado da rua?

Ih, ela não viu nada. Ela desde ontem, só consegue ver estrelas......