
Estou na faculdade. Faço direito e pretendo ganhar dinheiro, como 99,99% dos meus colegas.
O primeiro dia de aula ainda nem terminou e eu já fui cooptada para a luta armada. Amanhã começa uma greve de estudantes contra o aumento no restaurante universitário. O almoço vai passar de dois dinheiros para dois dinheiros e trinta centavos e nós, estudantes, não podemos pagar por mais este ato do imperialismo.
Pretendo passar minha vida acadêmica inteira sem chegar perto daquela comida, mas entro em greve por solidariedade. Solidasnosc, como diz meu novo botton com o logotipo do sindicato do Lech Valesa.
Chego em casa e meu pai fala horas da decadencia do movimento estudantil. No tempo dele os universitarios paravam pelo petroleo. Agora é pelo bandeijao.
Minha vida se resume em ir até a faculdade e ficar lá o dia inteiro sem fazer nada, só ouvindo Caminhando e Cantando no violão. Às vezes me chamam pra fazer piquete na frente do restaurante e é absolutamente constrangedos explicar para os coitados que estao la que por trinta centavos a mais eles e~stão colocando em risco a democracia do ensino. Para não dizer do país.
No saguão da faculdade de direito, onde os estudantes se concentram, logo começa a troca de olhares entre companheiros e companheiras.
Desde o primeiro dia de greve tenho notado um certo interesse por parte de um tipo moreno, magro, com uma espécie de tique que o faz tremer todo.
-Você é bem bonita.
Em um segundo radiografo completamente o cidadão.
Não é feio, mas parece maltratado. Ainda não sei dizer a idade, com certeza bem mais que os meus 23. Usa o figurino básico da época: calça encardida com faixa peruana como cinto, camiseta Hay que Endurecer e alpargatas. O cabelo é escuro com alguns fios brancos. Tem uma bolsa de pano atravessada e alguns livros perdendo a capa na mão.
No fim do dia eu já sei que ele intregra uma organização estudantil, que faz mestrado em sociologia, que seu único dinheiro vem de uma bolsa de estudos que um órgão de pesquisa estatal e que, mesmo assim, quer derrubar o governo.
A essas alturas já me vejo casada, velhinha, na nossa casinha na periferia(ele é da extrema esquerda), com nossos inúmeros filhos, netos e vira-latas pulando ao redor. Vou embora pensando nele.
Encontro com ele na faculdade. Hoje ele fala pouco, lê a Folha de São Paulo enquanto eu tomo um café. Curioso que ele se interessa mais pela reportagem sobre o Fagner. Temo que ele possa gostar também de Zé Ramalho.
Quando termina de ler, diz que tem uma revelação pra me fazer. Preparo a minha cara de receber declarações de amor, mas o que me conta é que está em campanha para arrecadar dinheiro para a luta estudantil.
Me diz que só devo contribuir por amor à causa, e não à ele. Sou obrigada a confessar que não tenho um centavo, mas ele aceita também jóias e obras de arte. Minha única jóia é uma correntinha de ouro com meu nome, que ganhei quando fiz quinze anos. Ele diz que só posso doar se acreditar realmente no que estou fazendo. Acabo doando a correntinha e combino de encontrar com ele no seu apartamento amanhã.
Estaciono o carro do meu pai a muitas quadras para ele não achar que sou burguesa. Caminhos por lugares ermos que nunca iria conhecer, não fosse o amor. A cada esquina agradeço a Deus por não estar morta e estuprada, o que ocorrer primeiro.
Toco a campainha. Subo as escadas correndo para não dar tempo de voltar. Eu esperava um pardieiro, e encontro. Ando pela sala com móveis sujos, roupas jogadas por todo canto de parede. Faço de conta que me espanto com a pia cheia de louça podre.
A greve que deu origem a toda história termina com a comida do restaurante trinta centavos mais cara. E todos voltam para as salas de aula. Menos ele, que continua ocupado com a resistência.
Acabo entrando para a tal organização e tenho até um codinome. Elisa. Uma das minhas funções é vender o jornal da resistência. Quatro exemplares por semana. Na primeira vez empurro um pra minha mãe, um pro meu pai e compro os outros dois. Depois passo a comprar todos os quatro, sem coragem de oferecer um jornal tão chato para alguém. Satisfeito com tanta eficiência, ele aumenta a minha cota para oito jornais por semana.
Deixo a organização para não pedir concordata.
Os companheiros me pressionam, mas nem o Kmer Vermelho me recapturaria.
Ele insinua que sou stalinista, mas continua querendo ficar comigo. Um dia marco e não apareço. Ele liga e eu não atendo. Fico sumida por uma semana e ele vai me procurar na faculdade. Sentamos para debater temas políticos, sociais e amorosos, nessa ordem. Quero escutar, mas estou longe, cada vez mais longe da luta e do apartamento dele.



